UM MÊS DE POESIA 22 de Novembro 2021

Escolha poética de Sandra Fernandes
Assistente Técnica do Centro de Saúde de Tavira
foto João Ribeiro

ACORDO DE NOITE, MUITO DE NOITE, NO SILÊNCIO TODO

São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia.
Abro a janela diretamente, no desespero da insónia.
E, de repente, humano,
O quadrado com cruz de uma janela iluminada!
Fraternidade na noite!

Fraternidade involuntária, incógnita, na noite!
Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia.
Dorme. Nós temos luz.

Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu?
Não importa. A noite eterna, informe, infinita,
Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,
O coração latente das nossas duas luzes,
Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida.
Sobre o parapeito da janela da traseira da casa,
Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro,

Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim.
Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!
Que fazes, camarada, da janela com luz?
Sonho, falta de sono, vida?
Tom amarelo cheio da tua janela incógnita…
Tem graça: não tens luz eléctrica.
Ó candeeiros de petróleo da minha infância perdida!

25-11-1931 Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa
(Edição crítica. de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.  – 153.

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