Poemas . Vitor Cardeira

De onde caem as pedras

Vitor Cardeira

de onde caem as pedras
que me atingem a linguagem
e libertam os silêncios
do princípio quando a tua presença
nos cruentos caminhos de lama e sangue
desagua na torrente de fogo
que a paixão acolhe?

de onde caem as almas que acompanham as pedras?

nunca conhecerás a origem
do que cai
nas sombras do vazio
dos outros.

(a pedra que me atingir ecoará no momento

da separação dos breus errantes)

as pedras caem e não rolam.
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Where the stones fall from

Vitor Cardeira

where do the stones fall from
that hit my speech
and release the silences
of the start when your presence
in the bloody paths of sludge and blood
pours into the torrent of fire
that shelters the passion?

where do the souls that accompany the stones fall from?

you will never know the origination
of what falls
in the shadows of the emptiness
of others.

(the stone that hits me will echo in the moment

of the separation from the errant darkness)

the stones fall and don’t roll.

translation by J.Coston & T.Leão

Atravessando a calmaria

Vitor Cardeira

Às vezes aparecem na cidade
Figuras recortadas na paisagem brusca
Retirando da luz a sombra que cresce
Na calçada pardacenta

Um homem senta-se numa cadeira azul
E o vento fustiga-lhe o rosto
Quantas vezes já o dissera – imaterial

São três horas da tarde e o crepúsculo
Assoma-se por detrás da noite
Uma mulher que o sopro da ventania não incomoda
Observa o que as horas aspergem
No desassossego dos sentimentos encriptados
Na voragem das palavras cruéis

Atravessando a calmaria que a envolve
Aproxima-se da cadeira azul
Enquanto o relógio da torre açoita o ar diverso
Debruça-se suavemente sobre a cadeira
E beija o cabelo revolto do homem sentado

O relógio repete a linguagem do tempo
Três vezes na cidade
Engolida pela sombra
As árvores se despem para enfrentar o frio

O beijo atira o homem até os confins de si mesmo
Até onde a solidão desaparece
E o mar morno contorna o emergir das palavras

A mulher reergue-se do beijo
E desloca-se imparável
Para o fim da rua
Onde a espera a eternidade

A noite cobriu de trevas a cidade
E o homem renasce na esplanada de cadeiras azuis
Bebendo uma cerveja
Com figuras que convergem
No esquecimento da dor

O caminho divergente acontece
Quando as rédeas do afeto não resistem
Ao que materializa a solidão

Contra a tempestade
Ergue-se a dor

Crossing the lull

Vitor Cardeira

Sometimes show up in the city
Figures silhouetted figures against the rough landscape
Taking the growing shadow out of the light
On the gray sidewalk

A man sits on a blue chair
And the wind hits his face
How many times has he said it – immaterial

It’s three o’clock in the afternoon and the dusk
Takes over behind the night
A woman who isn’t bothered by the wind
Watches what the hours sprinkle
In the disquiet and encrypted feelings
In the vortex of cruel words

Crossing the lull that surrounds her
She approaches the blue chair
While the tower clock beats the mixed air
She leans gently over a chair
And kisses the shaggy hair of the man sitting there

The clock repeats the language of time
Three times in the city
Swallowed by the shadow
The trees undress to face the cold

The kiss throws the man up to the limits of himself
As far as where loneliness disappeares
And the warm sea bypasses the emerging words

The woman rises from the kiss
And moves unstoppable
To the end of the street
Where eternity awaits

The night covered the city with darkness.
And the man is reborn on the terrace of blue chairs
Drinking a beer
With figures that converge
Into the forgetfulness of the pain

The divergent path happens
When the ribands of affection can’t resist
To what materializes the solitude

Against the storm
The pain rise

translation T.Leão & J.Coston