Poemas . Pedro Jubilot

“a última visita de álvaro de campos a tavira”

Pedro Jubilot

a paisagem vista da mesa do café
imagem de infância: largo da alagoa
igreja da nossa senhora da ajuda

o homem que de gabardine cinzenta
atravessa a pé a velha ponte romana
olhando para o rio de uma maré baixa

o homem que de roupa interior branca
atravessa o corredor da residencial sécqua
olhando para o espelho acendendo um cigarro

uma mulher chegando num carro preto
olhando para o edifício fugindo da chuva
toca a campainha e sobe apressada

uma mulher musa que traz cartas e mapas
projectos e quer saber a porta do quarto
do senhor engenheiro bate e ele abre-a

o homem alto e magro cabelo liso aparado
tem febre e escreve: “cada rua é um canal
de uma Veneza de tédios” a frase solitária
premindo as teclas da underwood”

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“the last visit of álvaro de campos to tavira”

the landscape seen from the cafe table
a childhood image: alagoa square
the church of our lady of perpetual help

the man that in his grey raincoat
walks across the old roman bridge
looking at the river at low tide

the man that in white underwear
crosses the corridor of the sequa hostel
looking in the mirror while lighting a cigarette

a woman arriving in a black car
looking at the building from the rain
rings the bell and hurries upstairs.

a female muse who brings letters and maps
projects and wants to know which is the bedroom door
of the engineer knocks and he opens it.

the tall, thin man with smooth straight hair
has a fever and writes: “each street is a canal
of a Venice of boredom” the solitary sentence
pressing the keys of the underwood”

translation by J.Coston & T.Leão

| tavira ~ algarve ~ portugal |

eu também não percebia muito bem o que significava turismo cultural,… o que pode mesmo a terra natal de um escritor dizer assim tanto sobre ele? ninguém escolhe onde nasce, muito menos poderia um heterónimo

não acreditava que era possível sentir a emoção que não dou a mim nem à minha vida, na estranha e doce melancolia da bipolaridade de álvaro de campos, sem ter passado a viver aqui, a viajar nos sentidos deste horizonte de quintal e praia

mas depois que vamos ficando, e ao vaguear por aí nos velhos cais resgatados ao salitre do tempo, pressente-se nos dias a poesia marítima, húmida e reticente… nas margens desta veneza de tédios, de um só canal, promíscuo fluído intersticial de águas doce, salgada e salobra

| blackpool ~ lancashire ~ inglaterra |

mesmo que margaret drabbic diga que este entre-estuários é um lugar horrível, apenas o será na medida em que qualquer outro lugar assim o é, para se viver a terceira idade, no terceiro milénio, o fim dos tempos, do mundo tal como o conhecíamos. tão repudiada, a morte assistida de sobre a maré negra, é afinal a contra corrente, neste vasto mar negro de écrans, onde plasmados, assistimos a toda a espécie de destruição e exuberante violência, complacentes, despudoradamente resistindo como indivíduos, neste raio de transição

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| tavira ~ algarve ~ portugal |

Pedro Jubilot

I, too, have no clear understanding of the meaning of cultural tourism; what can the place of birth of a writer possibly say about him? no one chooses where he is born, and even less can a heteronym so choose.

I did not believe it was possible to feel the emotion that I have not allowed into myself and my life, in the strange and sweet melancholy of Álvaro de Campos’ bipolarity, until I came to live here in Tavira, and to travel through the senses of this horizon of back plot and beach.

But after staying, and after wandering through the old wharfs recovered from the saltpeter of time, there can be sensed in the days, the presence of a maritime, moist, reticent poetry, on the banks of this venice of tedium, on the banks of a single channel, the promiscuous interstitial fluidity of salt, brackish and fresh water.

| blackpool ~ lancashire ~ england |

although margaret drabble says that this place, set between estuaries, is a horrible place, it will only be so insofar as any other place will be the same, spending one’s third age, in the third millennium, the end of time in the world as we have known it. so repudiated, death assisted by the black tide, and finally the counter current, in this vast sea of screens, where shaped, we are present at every kind of destruction and rampant violence, complacent, disparagingly resisting as individuals, in this thunderbolt of transition.

translation J.Coston & T.Leão