PESSOA(S) DE TAVIRA


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Clube de Tavira

exposição de documentos


... O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje  (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

 In Aniversário, Álvaro de Campos

 

Exposição de documentos encontrados por Rui Cansado Guedes num cofre de um descendente da família de Fernando Pessoa em Tavira.

  
NOTAS SOBRE TAVIRA 
Álvaro de Campos

Cheguei finalmente à vila da minha infância. 
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. 
(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). 
Tudo é velho onde fui novo. 
Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios — 
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes) 
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta. 
Tudo é velho onde fui novo. 
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo. 
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu. 
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?]. 
O que conquistei? Nada. 
Nada, aliás, tenho a valer conquistado. 
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala...
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação 
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira. 
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada) 
Sou forasteiro tourist, transeunte. 
E claro: é isso que sou. 
Até em mim, meu Deus, até em mim.

8-12-1931

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.  - 154.

Quando falamos em Álvaro de Campos falamos em Fernando Pessoa e, ao falarmos em Pessoa, estamos a falar do mais universal poeta de língua portuguesa, uma língua que é falada por mais de 273 milhões de pessoas em todo o mundo.

Parece-me que estes três fatores, por si só, justificam que Tavira reclame, cada vez mais, o direito a ser uma cidade “Fernandina”.

Esta pequena exposição é uma parte de um conjunto de documentos familiares que foram recentemente descobertos e que nos ajudarão a conhecer melhor a família paterna do escritor.

Quem eram, onde viviam, o que faziam estes Pessoa(s) de Tavira, primos do poeta? Parte deste acervo documental estava “esquecido” num antigo cofre (devido ao facto de serem documentos referentes a testamentos, partilhas, compra e venda de propriedades, registos de casamentos, registo de óbitos, entre outros assuntos familiares); e outra parte estava arrumada em caixotes que, possivelmente, acabariam no lixo e se perderiam para sempre, não fosse a sensibilidade de um familiar do poeta que os salvou e me entregou em mãos.

Muitas vezes, são acasos como este que dão origem a grandes descobertas nas investigações que andamos a realizar e que, durante tanto tempo, se encontram estagnadas!

Inicialmente, a leitura dos documentos não foi mais do que a consulta de alguns assuntos burocráticos relacionados com a família Pessoa mas, pouco tempo depois, pude constatar que a informação sobre os Pessoa, ligações familiares, bens, moradas era abundante.

Não só ficámos a conhecer a prima “Lisbela” como, também, outros parentes do lado paterno do escritor que com ele, certamente, privaram nas suas deslocações à cidade de Tavira.

Sabemos que Fernando Pessoa visitou Tavira mais do que uma vez, cidade onde nasceu o seu avô, General Joaquim António de Araújo Pessoa, assim como o seu tio Jacques Cesário Pessoa.

Foi nesta cidade do algarve que o escritor fez nascer o seu heterónimo Álvaro de Campos (1890 - dois anos depois do seu próprio nascimento) e Álvaro de Campos fez, por diversas vezes, alusões à sua vivência algarvia nos seus poemas:

“Na nora do quintal da minha casa o burro anda à nora, anda à nora
 E o mistério do mundo é do tamanho disto”.

 “Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo,
Da minha casa ao pé do rio,
Da minha infância ao pé do rio,
Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,
E a paz do luar esparso nas águas!...
Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu...,
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me” 

Provavelmente, a velha tia a que se refere o escritor será Maria da Cruz Lampreia Pessoa, mulher do seu tio Jacques Cesário Pessoa, a quem morreram três filhos antes dela própria falecer (Alfredo Augusto Pessoa, José Firmino Pessoa e Olímpio Júlio Pessoa).

O rio que Álvaro de Campos menciona na sua infância será o rio Gilão, enquanto que casa ao pé do rio pode muito bem ser a casa da sua tia Maria da Cruz, casa essa que se situava na Rua Borda d’Água d’Aguiar e dava para o rio que atravessa Tavira.

Noutro poema, Álvaro de Campos faz referência a:
 “todas as tias mortas fazem chá de novo. 
Na casa antiga da quinta velha.
Pára. meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui...
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!” 

Serão essa “quinta velha” e esse “horizonte de quintal e praia” a Quinta de Maria José, hoje denominada Quinta do Alvisquer, situada na Conceição de Tavira, ainda hoje em dia na posse de descendentes do tio de Fernando Pessoa, e com uma vista privilegiada para o mar?

Estou em crer que sim…

Torna-se, pois, importante e imperioso que Tavira se identifique, cada vez mais, com o escritor, com o heterónimo e com a pessoa.

Acredito que esta descoberta irá ajudar a essa aproximação porque, como referiu um dia a Professora Teresa Rita Lopes, devemos “ir a Tavira, não só para visitar a cidade onde nasceu Álvaro de Campos, mas sim visitar a cidade do Engenheiro de Tavira, como se visita a Lisboa de Fernando Pessoa, Praga de Kafka ou Dublin de James Joyce!”.

Rui P. Cansado Guedes
Licenciado em História- Ramo Científico *Pós-Graduado em História Contemporânea

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