PESSOA(S) DE TAVIRA . more info

NOTAS SOBRE TAVIRA
Álvaro de Campos

Cheguei finalmente à vila da minha infância.
Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.

(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado)

 Tudo é velho onde fui novo.                                                                                           Desde já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos prédios —
Um automóvel que nunca vi (não os havia antes)
Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.
Tudo é velho onde fui novo.
Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.
A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.
Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.
Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos — Senhor do mundo —
É aos 41 que desembarco do comboio [indolentão?].
O que conquistei? Nada.
Nada, aliás, tenho a valer conquistado.
Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala…
De repente avanço seguro, resolutamente.
Passou roda a minha hesitação
Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.
(Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada) Sou forasteiro tourist, transeunte.
E claro: é isso que sou.
Até em mim, meu Deus, até em mim.

8-12-1931

Quando falamos em Álvaro de Campos falamos em Fernando Pessoa e, ao falarmos em Pessoa, estamos a falar do mais universal poeta de língua portuguesa, uma língua que é falada por mais de 273 milhões de pessoas em todo o mundo. Parece-me que estes três fatores, por si só, justificam que Tavira reclame, cada vez mais, o direito a ser uma cidade “Fernandina”.

Esta pequena exposição é uma parte de um conjunto de documentos familiares que foram recentemente descobertos e que nos ajudarão a conhecer melhor a família paterna do escritor. Quem eram, onde viviam, o que faziam estes Pessoa(s) de Tavira, primos do poeta?

Parte deste acervo documental estava “esquecido” num antigo cofre (devido ao facto de serem documentos referentes a testamentos, partilhas, compra e venda de propriedades, registos de casamentos, registo de óbitos, entre outros assuntos familiares); e outra parte estava arrumada em caixotes que, possivelmente, acabariam no lixo e se perderiam para sempre, não fosse a sensibilidade de um familiar do poeta que os salvou e me entregou em mãos.

Muitas vezes, são acasos como este que dão origem a grandes descobertas nas investigações que andamos a realizar e que, durante tanto tempo, se encontram estagnadas! Inicialmente, a leitura dos documentos não foi mais do que a consulta de alguns assuntos burocráticos relacionados com a família Pessoa mas, pouco tempo depois, pude constatar que a informação sobre os Pessoa, ligações familiares, bens, moradas era abundante. Não só ficámos a conhecer a prima “Lisbela” como, também, outros parentes do lado paterno do escritor que com ele, certamente, privaram nas suas deslocações à cidade de Tavira.

Sabemos que Fernando Pessoa visitou Tavira mais do que uma vez, cidade onde nasceu o seu avô, General Joaquim António de Araújo Pessoa, assim como o seu tio Jacques Cesário Pessoa. Foi nesta cidade do algarve que o escritor fez nascer o seu heterónimo Álvaro de Campos (1890 – dois anos depois do seu próprio nascimento) e Álvaro de Campos fez, por diversas vezes, alusões à sua vivência algarvia nos seus poemas:

“Na nora do quintal da minha casa o burro anda à nora, anda à nora  E o mistério do mundo é do tamanho disto”.  

“Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo, Da minha casa ao pé do rio, Da minha infância ao pé do rio, Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite, E a paz do luar esparso nas águas!…

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu…, Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me”

Provavelmente, a velha tia a que se refere o escritor será Maria da Cruz Lampreia Pessoa, mulher do seu tio Jacques Cesário Pessoa, a quem morreram três filhos antes dela própria falecer (Alfredo Augusto Pessoa, José Firmino Pessoa e Olímpio Júlio Pessoa).

O rio que Álvaro de Campos menciona na sua infância será o rio Gilão, enquanto que casa ao pé do rio pode muito bem ser a casa da sua tia Maria da Cruz, casa essa que se situava na Rua Borda d’Água d’Aguiar e dava para o rio que atravessa Tavira. Noutro poema, Álvaro de Campos faz referência a:  

“todas as tias mortas fazem chá de novo. Na casa antiga da quinta velha. Pára. meu coração! Sossega, minha esperança factícia! Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui… Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer! Meu horizonte de quintal e praia!”

Serão essa “quinta velha” e esse “horizonte de quintal e praia” a Quinta de Maria José, hoje denominada Quinta do Alvisquer, situada na Conceição de Tavira, ainda hoje em dia na posse de descendentes do tio de Fernando Pessoa, e com uma vista privilegiada para o mar?

Estou em crer que sim… Torna-se, pois, importante e imperioso que Tavira se identifique, cada vez mais, com o escritor, com o heterónimo e com a pessoa.

Acredito que esta descoberta irá ajudar a essa aproximação porque, como referiu um dia a Professora Teresa Rita Lopes, devemos “ir a Tavira, não só para visitar a cidade onde nasceu Álvaro de Campos, mas sim visitar a cidade do Engenheiro de Tavira, como se visita a Lisboa de Fernando Pessoa, Praga de Kafka ou Dublin de James Joyce!”.

Rui P. Cansado Guedes Licenciado em História- Ramo Científico, Pós-Graduado em História Contemporânea PESSOA(S) DE TAVIRA_foto_5

NOTES ABOUT TAVIRA   
Álvaro de Campos

I finally arrived in the town where
I spent my infancy.

I got down from the train,
I remembered,
I looked, I saw, I compared.

Everything was old where
I was young.

And now – other shops, and other painted fronts to the same buildings,
A dark-yellow car I’ve never seen (there were none before)
Stagnates in front of a half-opened door.
Everything is old where it was new.
Yes, because even what is newest in relation to me means the rest being older 
The house they newly painted is old because it is newly painted.
I stop in front of the landscape, and what I see is me.
I have imagined myself here before, splendidly aged 40 – Lord of the world But I’m 41 when I get down from the train [indolent?]
What have I conquered? Nothing.
Nothing, that is, worth conquering.
I bring my tedium and my insolvency, physically making my suitcase heavier 
Suddenly I proceed secure, resolutely.
I have got round my hesitation
This town of my infancy is, in the end, a foreign city
(I make myself at home, as always, faced with what is  strange, what means  nothing to me). 
I am a foreign tourist, transient.
It is clear; this is what I am.
Even in myself, oh God, in myself.  
8-12-1931

                                       In Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa.

When we talk about Álvaro de Campos we talk about Fernando Pessoa, and when we talk about Pessoa, we are talking about the most universal poet of the Portuguese language, a language spoken by more than 273 million people all over the world.

It seems to me that these three factors all by themselves justify Tavira’s claim, getting stronger every time, to the right to be a “Fernandian” city.

This small exhibition is part of a collection of documents from my family that have been discovered recently and that will help us to learn more about his family on his father’s side.

Who were they, where did they live, what did they do, these Pessoa(s) from Tavira, cousins of the poet?

One part of this selection of documents was “forgotten” in an old safe (due to the fact that they were related to wills, shares, acquisitions and sales of properties, marriage and death registrations, among other family matters); another part was gathered in boxes that possibly would have ended up in the trash and would have been lost forever, were it not for the good sense of a family member of the poet who salvaged them and handed them to me.

Often it is a chance like this that is at the origin of great discoveries in the investigations we are working on and that, for so much time, have been just sitting there!

Initially, going through the documents was no more than a query into some bureaucratic subjects related to the Pessoa family, but, not much later, it became clear that the information about the Pessoas, family ties, assets, homes was abundant.

Not only did we get to know the cousin “Lisbela”, but also other family members on the side the author’s father, who certainly will have accompanied him during his travels to the city of Tavira.

We know that Fernando Pessoa visited Tavira more than once, the city where his grandfather was born, General Joaquim António de Araújo Pessoa as well as his uncle Jacques Cesário Pessoa.

It was in this Algarvian city that the author decided his heteronym Álvaro de Campos was to be born (1890 – two years after his own birth) and Álvaro de Campos several times alluded to his adventures in his poems:

At the scoop-wheel in the garden of my house,
the donkey drives the scoop-wheel,
drives the scoop-wheel

And the mystery of the world is the size of this.
All this time I have not taken my eyes off my distant dream
Of my house at the foot of the river,
Of my childhood at the foot of the river,
Of my bedroom windows giving out onto the river at night,
And the peace of the moonlight scattered on the water! …

My old aunt, who loved me because of the son she lost,
My old aunt used to send me to sleep as she sang to me.

The old aunt the author refers to was probably Maria da Cruz Lampreia Pessoa, the wife of his uncle Jacques Cesário Pessoa, who saw three children die before she herself passed away (Alfredo Augusto Pessoa, José Firmino Pessoa e Olímpio Júlio Pessoa).

The river from his childhood that Álvaro de Campos mentions must have been the rio Gilão, while the house at the foot of the river could  very well be the house of his aunt Maria da Cruz, that was situated in the Rua Borda d’Água d’Aguiar and had a view of the river that crosses Tavira.

In another poem, Álvaro de Campos refers to:

All the dead aunts make tea again.
In the old house of the old farmstead.
Stop, my heart!
Rest, my unreal hopes!

I wish I had never been except for the boy I was…
I sleep well because I simply sleep with no ideas to forget!
My horizon of garden and beach!

Could this “old farm” and this “horizon of garden and beach” be the Quinta de Maria José, that today carries the name Quinta do Alvisquer, situated in Conceição de Tavira, and still today owned by descendants of Fernando Pessoa’s uncle, with a privileged view of the sea? I believe so…

Thus, it becomes more and more important and imperative that Tavira identifies itself with the author, with the heteronym and with the man. I believe that this discovery will further their approach because, as Professor Teresa Rita Lopes said one day, we must “go to Tavira, not just to visit the city where Álvaro de Campos was born, but to visit the city of the Engineer of Tavira, in the way you visit Fernando Pessoa’s Lisbon, Kafka’s Prague and the Dublin of James Joyce!”

Rui P. Cansado Guedes Bachelor degree in History . Scientific approach, Post-graduation in Contemporary History   PESSOA(S) DE TAVIRA_foto_8