MODERNISMO IN TAVIRA

MODERNISMO IN TAVIRA 
Sede da A|NAFA  
SAB 13 de OUT. a SEX 30 NOV. 

... E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol. E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada…
                      In Realidade de Álvaro de CamposÀ dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos...
...

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro...
...

Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!...
...

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente...
...

Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!...
...

Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!...
...

                                             Excerto da ODE TRIUNFAL de Álvaro de Campos

Tavira foi a cidade eleita por Fernando Pessoa para fazer nascer Álvaro de Campos, aquele que será considerado o típico poeta da modernidade, da civilização e da técnica do mundo contemporâneo.

Não será mera coincidência, nem talvez apenas a ligação familiar que detinha com a cidade. Antes, também ele terá sentido o enorme encanto, a envolvência histórica e cultural que nesta cidade se respira em cada recanto... pressente-se que, ao longo das várias épocas, há nesta pequena e requintada Tavira um público que se revê no que mais de moderno se faz e que adere de imediato às novas correntes estilísticas.

Assim acontece também durante as décadas de 50 e 60 do século XX, em que a arquitetura modernista se expressa em emblemáticos exemplares ainda visíveis na cidade e seus arredores, de grande beleza e particular interesse e que urge estudar, inventariar e preservar na sua integridade, importantes testemunhos que são da arquitetura do século XX na cidade.

Nesta exposição fotográfica integram-se alguns dos exemplares mais marcantes, muitos dos quais da mão do arquiteto Manuel Gomes da Costa, hoje um dos nomes inquestionáveis da arquitetura modernista no Algarve.

Esta mostra não pretende no entanto e apesar do imenso merecimento deste arquiteto de longa vida e obra, homenageá-lo.

Pretende sim homenagear a cidade de Tavira, o seu património arquitetónico e o valor simbólico que este detém, como testemunho de uma época e de um modo de estar e pensar. Uma vez mais e em paralelo com o que acontece em épocas anteriores, assistimos em meados do século XX ao desenvolvimento de uma manifestação estilística que reflete a disponibilidade e abertura com que a sociedade tavirense acolhe este novo estilo depurado, geométrico e moderno, onde a beleza estética é fruto, tal como no passado, sobretudo das clássicas relações de proporção.

Estas construções, que se espalham por ambas as margens do Gilão e se prolongam por algumas das localidades mais próximas, assumem agora as possibilidades dadas pelos novos e emergentes materiais e processos construtivos, como o betão armado, a que se juntam elementos de uma gramática decorativa moderna, como os tubos, chapas e caixilharias metálicas, as lâminas verticais ou horizontais de betão ou metal, os revestimentos com painéis de azulejo (aqui muitas vezes de “sabor regional”), a pastilha vítrea, o tijolo de vidro ou vazado e ainda alguns elementos carismáticos da arquitetura da cidade, como a reixa ou os tabuados de madeira, sobretudo em proteções de sombra.

Quando hoje percorremos a cidade e nos deparamos com estes edifícios (muitos dos quais em verdadeiro mau estado de conservação e onde alguns elementos foram já tapados ou se encontram em perigo de destruição por parecerem feios e obsoletos), conseguimos ainda perceber a amplitude e expressão simbólica que este movimento deteve em meados do século passado na cidade.

Daí e quanto a nós, o interesse e razão para o reconhecimento, reabilitação e classificação como de interesse público, de todo este conjunto de edificados.

                                                                                                                                                             Isabel Macieira