A CONCUBINA JAPONESA PARTE II | 3 MONÓLOGOS

de | by Rudy Engelander

DOM 29 NOV 12h00 (hora PT) ONLINE FB, Site, Instagram FESTA

Toda a gente é a caricatura de uma única pessoa que não existe. Nenhum de nós podia figurar num romance realista. Somos todos falsos, inteiramente irreais

In Fernando Pessoa: As Crónicas Decorativas

Há poucos anos um caçador de pechinchas encontrou na feira de velharias ao pé do Mercado Municipal de Tavira uma velha pasta de couro. Nela estava um pedaço de papel arroz com caracteres japoneses e a fotografia de uma família japonesa. Havia também uma assinatura, provavelmente do dono. O nome era Álvaro de Campos.

É facto bem conhecido que Álvaro de Campos é o nome de um dos muitos escritores criados pelo mais célebre autor que já viveu em Portugal, Fernando Pessoa (1888-1935). Ele dava-lhes identidades individuais e escrevia livros em seus nomes.

Segundo Pessoa, Álvaro de Campos nasceu em Tavira. É nesta cidade que o seu aniversário (fictício) é celebrado todos os anos nos meses de Outubro e Novembro, desde 2015, com um grande número de eventos culturais, envolvendo muitos dos artistas e grupos artísticos locais.

Parece haver evidências de que o pai de Álvaro de Campos, que tinha o mesmo nome, se tenha mudado para o Japão quando seu filho era ainda muito pequeno. Trabalhou como adido cultural no consulado português em Kobe e viveu com uma concubina japonesa, com quem acabou por casar-se após a morte da sua esposa portuguesa. Com ela, teve outro filho

Quando o pai partiu, o pequeno Álvaro ficou em Portugal, primeiro em Tavira e depois em Lisboa, aos cuidados da mãe e de um irmão dela que era padre. Este ensinou latim ao rapaz, como relatou Fernando Pessoa em carta a Adolfo Casais Monteiro a 13 de Janeiro de 1935.

Há indícios de que Álvaro de Campos pai foi o responsável pela vinda do Prof. Boro da Universidade de Tóquio para proferir conferências na Universidade de Lisboa em 1914, visita essa relatada por Fernando Pessoa num artigo para o jornal O’ Raio.

Pai e filho mantinham um contato superficial. Na única visita que Álvaro pai fez a Tavira, teria trazido como prendas peças de arte Namban, que agora podem ser vistas numa das muitas igrejas de Tavira.

No poema Opiário, o filho escreve sobre uma viagem que fez ao Oriente, durante a qual pensa-se que visitou o pai e a família japonesa em Kobe, embora não mencione isso no poema. Aparentemente, por essa altura, Álvaro pai já havia aprendido japonês bem o suficiente para traduzir alguns versos da poesia de seu filho durante aquela visita.

Essas descobertas na feira de velharias de Tavira marcaram o início de uma busca aventureira pela verdade.

Everyone is the caricature of a single person that does not exist. None of us could figure in a realistic novel. We are all false, entirely unreal.

In Fernando Pessoa: As Crónicas Decorativas

Just a few years ago a bargain hunter found on the flea market near the Municipal Market in Tavira an old leather folder. In it was a piece of rice paper with Japanese characters and a photo of a Japanese family. And there also was a signature, probably of the owner. His name was Álvaro de Campos.

It is a well-known fact that Álvaro de Campos is the name of one of the writers that the most famous author that ever lived in Portugal, Fernando Pessoa (1888-1935), invented. He gave them an individual identity and wrote his books under their names.

According to Pessoa, Álvaro de Campos was born in Tavira. It is in this town that his (fictitious) birthday is celebrated every year in the months of October and November, since 2015, with a large number of cultural events, involving many of the local artists and arts groups.

There seems to be evidence that Álvaro de Campos’ father, who carried the same name, moved to Japan, when his son was still very young. He worked in the Portuguese consulate in Kobe as a cultural attaché and lived with a Japanese concubine, whom he eventually married, after the death of his Portuguese wife. With her he had another son.

When his father left, young Álvaro stayed in Portugal, first in Tavira and later in Lisbon, with his mother and her brother, who was a priest. This uncle taught him Latin, as Pessoa mentioned in the letter he wrote to Adolfo Casais Monteiro on January 13th, 1935.

There are indications that Álvaro de Campos Sr. was responsible for inviting Prof. Boro from the University of Tokyo to give a lecture at the University of Lisbon in 1914, a visit reported by Fernando Pessoa in the newspaper O’ Raio.

Father and son maintained a superficial contact. During the only visit Álvaro Sr. made to Tavira he is thought to have brought gifts, Namban art pieces, that can now be seen in one of Tavira’s many churches.

mention that in the poem. Apparently, by then Álvaro Sr. had learned sufficient Japanese to translate a few lines of his son’s poetry during that visit.

These findings in the Tavira flea market were the beginning of an adventurous search for the truth.